
Primeiro desce a candeia
No lagar há uma regra de outubro que ninguém explica: primeiro desce a candeia e depois o homem, e nunca sozinho. Na noite em que Mercedes volta depois de vinte e três anos, ela desce sozinha. Aristide Valmont tinha chegado na véspera para avaliar a casa e fica porque a adega não conta a mesma história que a família.
Primeiro desce a candeia
Capítulo 1
I
O cheiro chegou antes da casa. Era um cheiro doce e espesso, de fruta quente, e vinha morro acima com o ar da tarde. Aristide Valmont fez o último quilômetro devagar, com a mala numa mão e o chapéu na outra. Chegou ao portão do lagar de Anzuela às quatro e meia. Suava de um jeito que lhe pareceu impróprio de outubro.
Um homem grande estava no pátio descarregando cestos de uma carroça. Tinha as mãos roxas até o pulso e não as limpou para cumprimentá-lo.
— O senhor deve ser o avaliador.
— Aristide Valmont, às suas ordens.
— Higinio Reinares — respondeu, e lhe apontou a casa com o queixo. — Minha mulher lhe mostra o quarto. Aviso ao senhor que nestes três dias isto é um desastre e que ninguém vai atendê-lo como deve ser.
— Não vim para que me atendam, monsieur. Vim contar tonéis, e para isso me basta uma cadeira e uma vela.
Higinio olhou para ele de cima a baixo, sem nenhuma pressa.
— Como foi que o senhor me chamou?
— Monsieur. É «senhor» na minha língua e me escapa faz trinta anos. Sou de Neuchâtel, que fica na Suíça e não interessa a ninguém.
— A mim me chame de Higinio.
— Ao senhor eu chamo como o senhor quiser.
O homem assentiu uma vez. Pela primeira vez pareceu considerar que aquele senhor baixo e largo pudesse servir realmente para alguma coisa.
— Pois os tonéis estão lá embaixo — disse. — E lá embaixo desço eu primeiro, que é como se faz aqui desde sempre.
O lagar de Anzuela era uma casa de pedra de dois andares, com o curral colado na lateral. Fazia vinho havia duzentos anos e não tinha nenhuma reforma desde a guerra. Valmont deixou a mala, tirou o caderno e passou as duas horas seguintes atrás de Higinio, anotando pacientemente com um lápis na mão.
Contou onze tonéis de carvalho no galpão do lagar, e a prensa de viga, e os dois tanques de pedra, e anotou depois a área da eira, o estado do telhado e as duas juntas de bois que restavam na estrebaria. E no fim de tudo, Higinio correu uma tranca de madeira e abriu uma porta que havia debaixo da escada externa.
— A adega — anunciou.
Saiu do vão uma baforada doce que encheu materialmente a boca de Valmont de saliva. Lá embaixo, no escuro, alguma coisa trabalhava incansavelmente: um rumor contínuo e miúdo, como de chuva dentro de uma lata.
— O que é isso?
— O mosto. Está fervendo. — Higinio acendeu uma candeia do gancho e desceu dois degraus com ela na frente, e só depois desceu ele. — Este ano ferve como eu nunca vi. Setembro veio quente e a fruta entrou com muito açúcar.
Eram oito degraus de pedra, e lá embaixo o chão era de terra batida, dura e varrida, e o ar pesava de um jeito que Valmont não soube nomear e que atribuiu naturalmente ao cheiro. Havia quatro tonéis grandes embutidos na parede do fundo. Em cima de cada um, a tampa levantada e uma espuma parda que subia e se rompia sozinha. O ruído lá embaixo era muito mais forte que em cima.
— Cheira a bendito — disse Valmont. — Confesso ao senhor que nunca tinha estado numa adega em plena faina.
— Cheira a dinheiro. — Higinio levantou a candeia para o teto. — Aí está o tonel grande, que é de mil e duzentos cântaros e é o único que vale alguma coisa. Os outros três são velhos.
Valmont foi medindo com a fita métrica e anotando metodicamente, e de passagem olhou o que costuma olhar: o chão, os cantos e as paredes. Na parede do curral, à altura da cintura, havia um buraco quadrado do tamanho de um lenço.
— E isto serve para quê?
— A seteira. Por aí entra o ar do curral. Sem ar aqui embaixo não dá nem para ficar.
— Sei…
Valmont aproximou a mão do buraco e a manteve ali um momento. Depois limpou os dedos com o lenço, embora não os tivesse sujado com nada. Anotou seteira, curral e não disse mais nada.
Quando saíram, Higinio tornou a pôr a tranca na porta.
— Os senhores fecham sempre?
— Sempre. Aqui embaixo não entra ninguém a não ser eu, e nesta época do ano entro o justo.
Mercedes Reinares apareceu às sete, quando Valmont estava na cozinha passando as contas a limpo. Entrou sem bater, com um livro de capas de oleado debaixo do braço, e o pôs em cima da mesa diante dele.
— O senhor é o perito. Eu sou a irmã que foi embora.
— Encantado, madame.
— Mademoiselle, e tanto faz. — Sentou-se em frente e abriu o livro numa página dobrada. — Vou poupar ao senhor uma semana. O tonel grande deu no ano passado oitocentos e vinte cântaros. No livro de vendas constam seiscentos e noventa. Faltam cento e trinta cântaros e não estão em lugar nenhum.
— Isso é uma questão dos livros, madame, e eu vim avaliar. Por que a senhora está me contando?
— Porque o senhor é o único desta casa que não me deve nada e a quem eu não devo. E porque alguém aqui de dentro está roubando.
Disse com uma voz educada e clara, sem levantá-la nem um pouco, e na porta da cozinha Efrén Bidaurre ficou parado com duas esteiras no ombro.
— Diga o meu nome, se é que vai dizer — pediu o capataz, muito tranquilamente.
— Ainda não disse, e me parece que também não faz falta nenhuma.
— Pois diga ou cale a boca, que eu estou aqui faz doze anos.
— Doze anos — repetiu Mercedes — é exatamente o tempo que eu estou sem pôr um pé nesta casa. Não me venha com antiguidades.
Efrén foi embora sem responder. Mercedes fechou o livro e ficou olhando a porta vazia, e a Valmont pareceu que aquela mulher estava muito cansada debaixo do casaco bom.
Jantaram às dez, quando os vindimadores já tinham ido para o povoado, e foram finalmente sete à mesa. Sabina Ozcoz serviu e comeu de pé metade do tempo. Bruna Reinares, a mais nova, falava da capital e de um colégio onde dava aula, e corrigia o irmão cada vez que ele dizia um nome errado, com uma paciência de professora que a Valmont pareceu a coisa mais cruel daquela mesa. Dona Práxedes, que era irmã do pai morto e tinha setenta e dois anos, comia muito devagar e parecia não escutar nada.
— A partilha é simples — observou Bruna. — Três partes iguais. Está no testamento e não há mais o que falar.
— A partilha é simples num papel — respondeu Higinio. — Aqui não há três partes. Aqui há uma adega, e uma adega partida em três não é nada.
— Eu não quero a adega — disse Mercedes. — Eu quero o meu terço em dinheiro.
— O meu terço em dinheiro — repetiu Higinio muito devagar, com o garfo parado. — E de onde sai.
— De vender.
Ninguém disse nada durante um tempo bastante longo. Sabina recolheu o prato do marido, que estava inteiro, e o levou sem perguntar.
— E o número que o senhor puser nos obriga? — perguntou Sabina do aparador.
— Obriga os três, madame. Os senhores assinaram um perito terceiro diante do advogado no mês passado, e o que eu escrever ninguém discute.
— O que ele escrever é o que cada um recebe — disse Mercedes. — Você estava lá, Higinio.
— Eu estava lá.
— Monsieur Valmont, o senhor demora quanto? — perguntou Bruna.
— Quatro dias, se ninguém me atrapalhar. Amanhã eu queria passar a manhã inteira na adega. Com luz e sem pressa. Preciso medir os tonéis por dentro e quero ver o chão.
Dona Práxedes levantou devagar a cabeça do prato, pela primeira vez no jantar inteiro.
— Em outubro não se desce à adega — disse.
Bruna riu e pôs a mão no braço da tia.
— Tia, o senhor não vai descer para dançar.
— Em outubro não se desce — repetiu a anciã. — Meu irmão dizia e alguma coisa ele sabia. Primeiro desce a candeia e depois o homem, e se a candeia se apagar, a gente sobe e se cala. E nunca sozinho.
— Vai descer comigo e com luz — encerrou Higinio. — Como eu desço e como meu pai descia, e não se fala mais nisso.
E se falou imediatamente de outra coisa. Valmont tinha endireitado o saleiro da mesa sem perceber. Limpou as mãos com o lenço e não disse nada. Naquela casa, a única pessoa que tinha sorrido de boca fechada era a mulher que pensava em vender.
Antes de subir cruzou no corredor com Nieves, a filha de Higinio. Tinha onze anos e levava um gato debaixo do braço, como se leva um fardo.
— Boa noite, mademoiselle.
— Boa noite. — A menina lhe mostrou o animal. — Este não desce!
— E aonde é que ele não desce, mademoiselle?
— À adega. Senta lá em cima de tudo e fica lá e não desce nem se você jogar uma coisa nele. É bobo.
— É bem possível — disse Valmont — que esse animal seja o único esperto desta casa.
A menina riu e saiu correndo, e ele subiu para se deitar. Da sua janela se via o curral, e no curral um monte de sarmentos, e atrás a serra, já preta. Ficou um tempo com a janela aberta escutando o rumor do mosto, que se ouvia perfeitamente dali, e depois a fechou porque estava frio.
Às seis e meia da manhã o acordou uma mulher gritando no pátio.
Quando desceu, já estavam todos. Mercedes Reinares estava estendida de barriga para cima no chão do lagar, entre a prensa e as esteiras. Estava de casaco e de sapatos. Tinha as mãos abertas dos lados do corpo, com um anel na esquerda e um relojinho de pulso no punho. Tinha a cara muito escura e os lábios de uma cor que não era cor nenhuma.
Valmont se pôs de cócoras ao lado dela e não a tocou.
O chão do lagar era de laje, e estava seco e varrido, e no galpão inteiro não se via um punhado de terra solta, nem junto à prensa nem debaixo das esteiras. Os saltos dos sapatos de Mercedes traziam terra. As costas do casaco, dos ombros até a cintura, traziam terra. No bolso esquerdo aparecia uma carteira de couro. E o bolso direito do casaco estava virado do avesso, pendurado como uma língua.
— Quem a encontrou?
— Eu. — Bruna estava colada na parede, com as duas mãos na boca. — Às seis menos um quarto. Desci para pôr o café e a vi aí, igual a como está agora.
— A senhora a moveu de lugar? Tocou na roupa dela?
— Não toquei. Não fui capaz de tocar nela, monsieur, eu juro.
Higinio estava de pé a três passos, sem casaco, com a camisa da véspera e as botas calçadas. Não tinha aberto a boca desde que Valmont desceu ao pátio, e tinha a cara da cor da cinza.
O doutor Loza chegou às oito e meia numa motocicleta, e demorou vinte minutos largos para dizer alguma coisa. Era um homem jovem, da capital, e via-se que estava fazendo memória de coisas que tinha estudado e nunca tinha visto.
— Não há ferida — declarou por fim. — Não há pancada na cabeça. Não tem marca nenhuma no pescoço, e isso eu digo com certeza, porque é a primeira coisa que olhei.
— E de que ela morreu, então, doutor? Diga-me como diria a um colega.
— Sufocou. — Loza passou a mão pela nuca, visivelmente incomodado. — Não há outro jeito de dizer. Esta mulher sufocou, e não há água, nem corda, nem ela tem nada na boca.
— Continue, eu lhe peço.
— Tem terra debaixo das unhas. As oito unhas da frente. — O médico levantou uma manga e tornou a baixá-la. — E tem dois hematomas debaixo das axilas, um de cada lado, e a costura do ombro descosturada. Esta mulher foi arrastada puxada pelos braços.
— Antes ou depois?
— Depois. — Loza fechou a maleta. — Depois com certeza, e não me pergunte quanto depois, porque eu não sei. Eu não assino isto, monsieur. Isto que suba a Guardia Civil.
Higinio Reinares se virou e saiu do lagar. Apoiou-se no tanque do curral, e lá de dentro se ouviu ele vomitar durante um tempo longo. Sabina saiu imediatamente atrás dele com um pano. Ninguém fez nenhum comentário. Para todo mundo pareceu que era o que cabia a um irmão, e continuaram olhando o chão enquanto o homem grande vomitava no curral da sua própria casa.
Valmont saiu ao pátio e ficou um momento olhando a porta que havia debaixo da escada externa.
A tranca estava posta. Estava posta por fora, atravessada nos seus dois ferros, igual a como Higinio a tinha deixado na tarde anterior diante dele.
Limpou as mãos com o lenço, muito devagar, e não disse uma palavra.
Primeiro desce a candeia
Capítulo 2
II
O sargento Olarra subiu de Solmena ao meio-dia com dois guardas e uma pasta de oleado, e em vinte minutos tinha praticamente tomado a casa.
Era um homem de cinquenta anos, com a cara curtida e as mãos muito grandes. Tinha o costume de repetir a última palavra do outro antes de responder, e a Valmont pareceu que aquilo não era falta de jeito, e sim um modo bastante hábil de ganhar tempo.
— E o senhor faz o quê aqui?
— Perito judicial, sargento. De lista. Aqui me nomearam para a divisão da herança.
— Sei. — Olarra olhou para ele o tempo justo. — Da lista do juízo de Solmena eu já li relatórios do senhor. Fique se quiser, e fique calado.
Pôs os dois guardas nas duas portas, sentou-se à mesa da cozinha e começou por Higinio.
— A que horas o senhor se levantou?
— Às seis.
— Às seis. E a que horas se deitou?
— Às onze e meia, com todos.
— E no meio?
— No meio eu dormi, sargento. Estou com vinte dias de vindima e me deito como se deita um saco.
Olarra escreveu aquilo lentamente e sem levantar a cabeça, e Valmont, que estava de pé junto à janela com o caderno de avaliação na mão, compreendeu que o sargento já tinha uma ideia e que a ideia lhe agradava.
— O senhor dorme muito bem para o que tem em cima.
— Tinha em cima uma vindima. Agora tenho em cima outra coisa.
— Sua irmã queria vender esta casa.
— Minha irmã queria a parte dela em dinheiro. É diferente, e o senhor sabe disso igual a mim.
— É diferente. — Olarra levantou por fim os olhos. — E quanto vale a parte?
— Isso pergunte ao senhor ali, que foi para isso que o trouxeram.
— Pergunto ao senhor.
— Não sei, e vou dizer por que não sei. Nunca tive dinheiro, sargento. Tive tonéis, e um tonel não se parte no meio.
Quando saiu, Higinio teve que se apoiar um momento no marco da porta. As mãos tremiam e ele as levava abertas, como se o atrapalhassem. Olarra olhou-o ir embora com muito interesse.
— Aí está — comentou. — Esse homem perde a casa e ganha uma demanda com a morte de uma mulher. Para mim, com isso, já sobra.
— Aí eu tenho um homem que vomitou hoje de manhã e que não comeu o dia inteiro — respondeu Valmont. — Ainda não sei de que é a marca, sargento, e até saber prefiro não lhe pôr nome.
Valmont encontrou Efrén Bidaurre no curral, carregando esteiras vazias, e ficou um tempo olhando-o trabalhar antes de dizer nada. Depois tirou o lenço e limpou as mãos.
— Cento e trinta cântaros — disse.
O capataz continuou carregando.
— São umas seis mil pesetas pelo preço deste ano — continuou Valmont. — Não é uma fortuna. É o bastante para que um homem faça bobagens de manhã cedo.
— O senhor é avaliador ou é guarda?
— Sou perito, monsieur, e a um perito pagam para contar as coisas e para não acreditar no que lhe contam. E esta manhã eu contei uma tranca posta por fora numa porta que ontem o senhor Higinio fechou diante de mim. Quem tornou a pôr?
Efrén largou as esteiras no chão. Ficou um momento olhando a serra, com as mãos nos rins, e quando falou falou secamente, sem nenhuma emoção, igual a quem dá um relatório de trabalho.
— Fui eu. Às seis e quinze da manhã.
— Conte devagar, eu lhe peço.
— Saí para atrelar e vi a porta da adega escancarada. Aberta de todo, com a tranca jogada no chão. — Encolheu os ombros. — E eu estou há dois invernos tirando vinho do tonel grande e vendendo em Solmena, e a senhorita Mercedes tinha cantado isso na cozinha na noite anterior, diante do senhor, e eu ouvi da porta. Pensei que alguém tinha descido para olhar.
— E o que o senhor fez?
— Pôr a tranca e ir buscar os vindimadores. Para ter a manhã.
— O senhor não olhou dentro?
— Não olhei. — Pela primeira vez levantou a voz. — Se eu chego a olhar dentro, monsieur, agora mesmo não estaríamos falando disto. Estaria ela no chão e eu dando gritos.
— E não lhe pareceu estranho que a porta estivesse aberta?
— Me pareceu ruim para mim. Que é diferente de estranho.
Valmont anotou cuidadosamente a hora no caderno, embaixo da área da eira.
— Vão pendurar o roubo no senhor, monsieur Bidaurre.
— O roubo é meu e não vou negar. Que pendurem e pronto.
— Mais uma coisa. O senhor viu alguém no pátio às seis e quinze?
— Não vi ninguém. A casa estava fechada e não havia luz em janela nenhuma. — Tornou a carregar as esteiras. — A senhorita Bruna diz que desceu às seis menos um quarto para pôr o café. Pois a cozinha estava no escuro quando eu passei na frente.
Dona Práxedes recebia no quarto, sentada numa poltrona de orelhas, com uma manta xadrez sobre os joelhos e as mãos em cima da manta.
— O senhor é o que mede.
— Eu sou o que mede, madame. E hoje eu queria medir uma coisa que não está no inventário. Por que a sua sobrinha foi embora desta casa faz vinte e três anos?
A anciã ficou calada tanto tempo que Valmont pensou que não o tivesse ouvido.
— Pergunte às outras duas — disse por fim. — Vão lhe dar duas respostas diferentes e nenhuma das duas é a boa, e as duas acreditam nelas.
— E a boa, madame?
— A boa eu levo comigo, filho. — Moveu-se a manta sobre os joelhos. — Meu irmão Cosme tinha três coisas: esta casa, um gênio muito ruim e uma filha que saiu a ele. Das três, a que lhe importava era a casa, e não me faça falar mais de um morto que era meu irmão.
Sabina Ozcoz deu a sua na cozinha, sem parar de descascar.
— Foi embora atrás de um homem. Como vão todas.
— Que homem?
— Um ajudante do tanoeiro, que andava aqui com os tonéis. Um tal de Tobías. — A faca não parou. — Ela tinha vinte e um anos e aqui não se falava de outra coisa em três povoados. Foi embora e não tornou a escrever, nem pelo enterro da mãe.
— E o rapaz?
— O rapaz se afogou naquele mesmo outono no tanque do curral, com dois palmos de água. E não me pergunte mais, que eu naquela época não era desta casa e tudo o que sei me contaram.
Bruna deu a sua no corredor, de pé, com os braços cruzados.
— Foi embora porque meu pai a expulsou. — Falava depressa e muito claro, como em aula. — Meu pai era um homem que não perdoava uma coisa duas vezes, e naquela noite houve uma cena no pátio, e na manhã seguinte Mercedes já não estava.
— A senhora a viu ir embora?
— Eu tinha quinze anos e me deixaram trancada no meu quarto. — Moveu-se a boca dela de um jeito estranho. — Se lhe serve de alguma coisa, monsieur, eu estou há vinte e três anos sabendo que naquela noite aconteceu alguma coisa e que nesta casa ninguém vai dizer nunca.
— E a senhora sabe?
— Eu sei a minha parte, e a minha parte não lhe serve para nada.
— Permita-me que seja eu a decidir isso, mademoiselle.
— Permita o senhor a mim, que a parte é minha — respondeu Bruna, e foi embora corredor adiante sem dar nenhuma explicação.
No meio da tarde, Valmont estava medindo a parede do curral pelo lado de fora, com a fita presa num prego, quando notou alguém atrás.
— Eu ajudo?
Era Nieves. Trazia o gato debaixo do braço, ainda.
— A senhorita vai me fazer um grande favor. Segure aqui e não se mexa.
A menina segurou a fita com as duas mãos e uma seriedade verdadeiramente enorme.
— É verdade que mataram a minha tia?
— Ainda não sei. E a senhorita, o que acha?
— Eu acho que ninguém a conhecia. — Mudou o peso de um pé para o outro. — Chegou na quinta e morreu no sábado. Eu só falei com ela uma vez.
— E do que vocês falaram?
— Do cheiro. Ela me perguntou se eu gostava e eu disse que esse cheiro me deixa doente.
Valmont parou de escrever.
— Deixa a senhorita doente?
— No ano passado eu fiquei doente oito dias. — Disse com orgulho, como quem mostra uma cicatriz. — Vomitei e me doía muitíssimo a cabeça, e veio dom Fermín e disse que era do cheiro e que me levassem para o campo. E me levaram e passou.
— E este ano?
— Este ano não, porque a minha mãe…
— Nieves.
Sabina estava na porta do curral com uma bacia na cintura. Não tinha levantado a voz, mas a menina soltou a fita como se queimasse.
— Deixa o senhor trabalhar e vai buscar água.
A menina saiu correndo. Sabina ficou um momento a mais do que o necessário, olhando o prego onde Valmont tinha prendido a fita, e depois entrou em casa.
Valmont enrolou a fita muito devagar, limpou as mãos com o lenço e ficou olhando a parede. À altura da sua cintura, tapada por um monte de sarmentos empilhados contra a pedra, estava a seteira.
Mandou abrir a adega às cinco da tarde.
Desceram Olarra, um guarda com uma lâmpada de carbureto e Efrén, e Valmont atrás de todos. A porta estava aberta desde o meio-dia e mesmo assim, no terceiro degrau, o cheiro doce se fechou sobre eles como uma mão.
No quinto degrau havia uma candeia de latão tombada de lado.
Valmont se pôs de cócoras e a levantou delicadamente com dois dedos, pela asa. O vidro estava inteiro. Inclinou-a e o óleo se moveu lá dentro com um barulho de copo cheio.
— Está cheia — disse Olarra.
— Está cheia até em cima, sargento. E o pavio ardeu o que arde um pavio em cinco minutos.
— Alguém apagou.
— Alguém ou alguma coisa — respondeu Valmont, e a deixou onde estava.
No mesmo degrau e no seguinte havia três fósforos queimados. Estavam queimados inteiros, até a metade do palito, e os três estavam juntos.
Lá embaixo, na terra batida, as pegadas se liam como uma linha escrita. Uns sapatos pequenos desciam retos até o fundo. Em cima deles, pisando-os, umas botas de homem desciam e tornavam a subir, e as de subida iam muito juntas e muito fundas de salto, com o passo curto de quem leva peso.
Valmont olhou para elas um tempo longo, com as mãos nas costas, e não disse nada do que estava pensando. O sargento Olarra olhava as mesmas pegadas ao lado dele e respirava pela boca.
No poste da escada havia uma corda de esparto enrolada em oito. Faltava-lhe um palmo para estar seca: a ponta estava escura, molhada e com terra grudada.
— Sargento, de quem é essa corda?
— Da casa — disse Efrén de trás. — Dali não sai nunca. A gente se amarra na cintura para descer a limpar os tonéis por dentro, e quem desce leva sempre outro em cima segurando.
Valmont desceu os três degraus que lhe faltavam e chegou ao chão da adega, e assim que pôs os dois pés embaixo lhe pareceu que o galpão pesava em cima dele. A lâmpada de carbureto, que em cima dava uma luz branca, ardia ali baixa e amarela. O coração começou a bater no pescoço dele de um jeito que lhe desagradou profundamente.
— Monsieur — disse Efrén —, aqui embaixo não se fica.
— Só um momento.
Junto ao tonel grande, a dois passos de onde devia ter caído Mercedes Reinares, faltava uma laje no chão.
Estava levantada e apoiada de lado contra a parede, e ao lado, na terra, havia um formão de carpinteiro com o cabo virado para cima. No buraco, meio enterrada e com a tampa para o teto, via-se uma caixa de folha de flandres do tamanho de uma caixa de biscoitos.
Valmont se agachou, e já não se levantou tão depressa quanto tinha se agachado.
Primeiro desce a candeia
Capítulo 3
III
A caixa foi aberta em cima da mesa da cozinha, diante de seis pessoas e de dois guardas, e lá dentro não havia nada que valesse quatro pesetas.
Havia uma passagem de vapor de Vigo a Buenos Aires, de terceira, em nome de Mercedes Reinares Otazu. Havia outra idêntica em nome de Tobías Ibarreta Sáiz. As duas estavam sem picar e as duas traziam impressa a mesma data, que era de vinte e três anos atrás. Embaixo havia oitocentas pesetas em notas velhas, amarradas com um cadarço de sapato, e um canivete de cabo de chifre com as escamas gastas.
Durante um tempo bastante longo ninguém tocou em nada.
— Esse canivete eu conheço — disse dona Práxedes.
— De quem é, madame?
— Do rapaz. — A anciã não estendeu a mão. — Eu o vi cortar pão duzentas vezes nessa mesma mesa.
Olarra virou as notas com um lápis e tornou a deixá-las como estavam.
— Enterrado debaixo de uma laje — disse. — E a isto a gente chama o quê?
— A isto se chama a bagagem de uma mulher que não foi embora — respondeu Valmont. — Deixou aí faz vinte e três anos e voltou para buscar na quinta-feira passada. É a única coisa que ela veio buscar nesta casa.
Bruna Reinares se levantou da cadeira e saiu da cozinha.
Encontrou-a no curral, junto ao tanque, com os braços cruzados e sem casaco, e ficou um tempo longo ao lado dela sem lhe dizer nada. Estava frio e já começava a cair a tarde sobre a serra.
— Me dê a carta, mademoiselle.
Bruna não se virou.
— Que carta?
— A que a senhora tirou do bolso direito do casaco no sábado de manhã. — Valmont tirou o lenço e limpou as mãos. — A senhora desceu às seis menos um quarto, segundo a senhora mesma, e não deu um grito até as seis e meia. A senhora esteve sozinha com a sua irmã três quartos de hora, mademoiselle. O bolso estava virado do avesso, e uma mulher não vira um bolso do avesso para morrer.
— Qualquer um poderia ter feito isso.
— Poderia. Mas quem virou aquele bolso deixou o anel, o relógio e a carteira, de modo que procurava uma coisa concreta e sabia qual era. Nesta casa há uma só pessoa que pudesse saber. E essa pessoa não voltou a dormir desde sábado. — Guardou o lenço. — Estou pedindo à senhora antes de pedir ao sargento. É tudo o que posso fazer.
Bruna enfiou a mão por dentro da manga, tirou um papel dobrado em quatro e o deu sem olhar para ele.
Era meia folha de caderno, com a letra grande e redonda de uma menina que escreve devagar para que saia bem.
Pai: Mercedes vai embora esta noite com Tobías, o do tanoeiro. Vão no ônibus das cinco. Não contei a ninguém. Bruna.
— Eu tinha quinze anos — disse ela.
— Estou vendo.
— Mandei para a hospedaria de Solmena, que era onde meu pai parava na feira, com o filho do padeiro e dois reales. — Os dentes batiam e não era de frio. — Meu pai voltou naquela noite. E de manhã o rapaz estava nesse tanque, aí onde o senhor está com a mão, e a minha irmã tinha ido embora.
— E a senhora acreditou no quê?
— No que eu ia acreditar? No mesmo que acredito há vinte e três anos. — A voz se quebrou pela primeira vez. — Que meu pai o matou, e que o matou porque eu escrevi aquela carta, e que se eu tivesse ficado de boca calada aquele rapaz estaria vivo e a minha irmã teria voltado no Natal.
— E por que a senhora tirou a carta do bolso?
— Porque ela tinha guardado. — Bruna olhou por fim para Valmont, e tinha a cara de uma mulher de sessenta anos. — Vinte e três anos numa gaveta, em outro país, e traz de volta. Na quinta ela me mostrou e me disse: amanhã a gente conversa, você e eu. E no sábado estava morta no chão do lagar. Diga o senhor o que teria feito.
— O mesmo, muito provavelmente — disse Valmont. — E teria me enganado igual à senhora.
Dona Práxedes recebeu pela segunda vez naquele dia, com a manta sobre os joelhos e a lâmpada já acesa.
— Sente-se, que isto é longo.
— Tenho a noite inteira, madame.
— Foi no dia catorze de outubro. — A anciã disse como quem dá uma data de nascimento. — Encontrou-o o moço das mulas às sete da manhã, de bruços no tanque, com a roupa de festa. Naquele tanque há dois palmos de água, monsieur, e no verão nem isso.
— Um homem se afoga em dois palmos de água se estiver sem sentidos.
— Foi isso mesmo que meu irmão disse. — Dona Práxedes alisou a manta. — Veio dom Anselmo, que era o médico daquela época e estava havia quarenta anos no povoado, e ficou com o corpo o seu tempo. E depois se levantou e disse diante de mim uma coisa que eu não esqueci. Disse: este rapaz não tem água no peito.
Valmont ficou muito quieto.
— E o que respondeu o seu irmão?
— Respondeu que ele escrevesse e fosse para casa. E dom Anselmo escreveu e foi para casa, porque devia ao meu irmão o conserto do telhado e porque nos povoados as coisas se fazem assim. — A anciã levantou um dedo. — Afogado. Aí está escrito e aí vai continuar.
— E a sua sobrinha?
— Minha sobrinha pegou o ônibus das cinco da madrugada, duas horas antes de o corpo aparecer. — Ficou calada. — Por isso nesta casa não se falou disso em vinte e três anos. Porque ela foi embora antes. E quem vai embora antes já não precisa que ninguém o acuse.
— Madame, o seu irmão descia à adega em outubro?
Dona Práxedes olhou para ele como se ele tivesse perguntado as horas no meio de um enterro.
— E isso tem o que ver?
— Ainda não sei. Faça-me o favor.
— Meu irmão não tornou a descer sozinho àquela adega em outubro em toda a vida dele. — A anciã franziu o cenho. — Nem ele nem ninguém desta casa. Com a luz na frente e com outro atrás segurando, e o justo. Mandou naquele mesmo outono e disse uma vez só, e nesta casa uma vez só bastava. Eu sempre acreditei que era por causa do rapaz, para não pisar onde… — Deteve-se. — Por respeito, enfim. Para não andar de festa com um morto recente.
— E ele explicou alguma vez por quê?
— Meu irmão não explicava. Meu irmão mandava.
Higinio foi chamado à cozinha às oito, e Valmont pediu ao sargento que o deixasse começar.
Pôs em cima da mesa três coisas: a corda de esparto, a candeia de latão e o seu próprio caderno de avaliação aberto na página da adega.
— Monsieur Reinares, na terra da sua adega há dois rastros. Um é de uns sapatos de mulher que descem e não tornam a subir. O outro é de umas botas de homem do quarenta e quatro, que descem com passo normal e sobem com passo curto e afundando o salto. — Valmont girou o caderno para ele. — O senhor calça quarenta e quatro. A corda tem um palmo molhado e sujo, e faz três dias que não chove. A sua irmã tem dois hematomas debaixo dos braços.
Higinio olhava fixamente a candeia e não tocava nela.
— Vou lhe perguntar uma só coisa e peço que me responda. Foi o senhor que a tirou da adega?
— Fui eu.
Sabina, que estava na porta com um pano na mão, fechou os olhos.
— Conte-me.
— Desci e ela estava lá embaixo, ao lado da laje, de bruços. — Falava olhando a candeia. — Falei com ela e não me respondeu. Virei o corpo e a cara já estava fria. E eu não ia deixar ela ali, monsieur, no chão, com o mosto em cima fazendo barulho. Peguei por debaixo dos braços e subi arrastando os oito degraus e a pus no lagar, no limpo.
— A que horas?
— Às seis menos um quarto. Por aí.
— Às seis menos um quarto a sua irmã Bruna já estava no lagar com o corpo — disse Valmont muito suavemente. — E às seis e quinze Efrén Bidaurre encontrou a porta da adega escancarada e a trancou.
Higinio não respondeu.
— Por que o senhor não disse isso no sábado de manhã?
— Porque assim que se diz isso, já está dito todo o resto.
Olarra se levantou da mesa e ajustou o cinturão, e a Valmont pareceu que ele estava havia dois dias esperando aquele momento.
— Higinio Reinares, o senhor vem comigo para Solmena.
— Sargento…
— Monsieur Valmont, este homem perde a casa se a irmã receber, este homem esteve com o corpo antes de todo mundo, este homem o moveu, mudou de lugar e escondeu, e este homem mentiu para mim duas vezes em dois dias. — Olarra recolheu a pasta de oleado. — Eu com isso já não tenho que pensar mais.
— Ce n'est pas possible.
Disse em voz baixa e quase para si, e foi a única coisa que disse no seu idioma em todo o tempo em que esteve naquela casa.
— Fale comigo em cristão — disse Olarra.
— Perdoe-me. — Valmont guardou o lenço. — Sargento, se o senhor o levar esta noite, amanhã esse homem assina o que puserem na frente dele. Está há quatro dias sem dormir. Me dê até amanhã à tarde.
— Não.
Sabina Ozcoz largou o pano e se pôs diante da porta.
— Meu marido desceu para tirar ela porque é irmã dele. Isso qualquer um faz.
— Qualquer um conta, senhora. Ele não contou.
Valmont saiu ao curral enquanto lá dentro discutiam.
Estava escuro e fazia um frio seco. Acendeu o isqueiro e se pôs de joelhos diante do monte de sarmentos. Foi afastando com as duas mãos, sem nenhuma pressa, até deixar a pedra à vista.
A seteira media um palmo e meio de lado. Em volta do buraco, pregados no marco de madeira, havia quatro furos. Os quatro estavam vazios e nos quatro a madeira do fundo era clara e limpa, da cor que tem a madeira recém-partida.
De um deles pendia um fio de estopa.
Valmont se levantou, sacudiu os joelhos e limpou as mãos com o lenço durante muito mais tempo do que fazia falta. Depois tornou a entrar na cozinha, onde o sargento já tinha Higinio de pé.
— Sargento, faça-me um último favor antes de levá-lo.
— Diga.
— Desça comigo à adega. — Valmont alisou o bigode com as costas do polegar. — E que alguém me traga uma vela e uma vara das de varejar.
Primeiro desce a candeia
Capítulo 4
IV
Desceram todos até a porta da adega, e a ninguém pareceu que fizesse falta perguntar por quê.
Na frente ia Valmont com uma vara de varejar de três metros. Atrás, o sargento Olarra e os seus dois guardas, e atrás Higinio sem algemas, e Sabina colada no marido, e Bruna, e Efrén, e no fim dona Práxedes agarrada no braço da menina. O doutor Loza chegou quando já estavam todos e ficou no último degrau da escada externa, com a maleta na mão, sem saber para que a tinha trazido.
Valmont amarrou uma vela na ponta da vara com duas voltas de barbante. Acendeu, e a chama subiu reta e amarela no ar parado do pátio.
— Sargento, o senhor me faz o favor de correr a tranca?
Olarra a correu. A porta se abriu sobre a escada preta e saiu lá de baixo o cheiro doce e o ruído miúdo do mosto, que naquela noite se ouvia mais do que nunca.
Valmont enfiou a vara pelo vão e foi descendo a vela degrau por degrau, muito devagar, contando-os em voz alta para que todo mundo os contasse com ele.
— Um. Dois. Três.
A chama continuava reta.
— Quatro.
A chama encolheu, ficou azul embaixo, se esticou uma vez e se apagou.
Não a apagou nenhuma corrente de ar, porque não havia nenhuma corrente de ar. Apagou-se sozinha, do mesmo modo que se apaga uma vela debaixo de um copo.
Ninguém disse nada. O sargento Olarra recuou meio passo instintivamente, sem perceber.
Valmont subiu a vara, acendeu outra vez a vela no pátio e a chama pegou de primeira e ficou reta e quieta. Tornou a descê-la. No quarto degrau se apagou exatamente igual.
— O mosto come o ar — disse, e tirou a vara. — Come enquanto ferve e devolve outro que não serve. Esse outro pesa mais que o nosso e não sobe: fica embaixo, deitado no chão, como a água num tanque. Agora mesmo, naquela adega, há metro e meio de alguma coisa que não se vê, não faz barulho e não cheira a nada, porque em cima cheira a fruta.
— No sábado eu desci até lá embaixo de tudo — disse Valmont —, com a porta aberta desde o meio-dia, e fiquei meio minuto e subi com o coração desbocado. Hoje a porta está fechada desde ontem. Por isso hoje se apaga no quarto degrau e no sábado não teria se apagado até o sexto.
— A um homem isso mata — disse Efrén, muito baixo.
— A um homem isso mata em três minutos, e ele não percebe. Primeiro se apaga a luz dele e depois se apaga ele. Por isso desce primeiro a candeia e depois o homem, madame — acrescentou, e se voltou para dona Práxedes. — E por isso em outubro não se desce. O seu irmão sabia perfeitamente. O que ele nunca fez foi dizer por quê.
— E o gato também não desce — disse Nieves, bem baixinho.
— O gato também não desce, mademoiselle. O gato é o único desta casa que não precisa que lhe expliquem.
A anciã tinha as duas mãos no punho da bengala e não respondeu.
— Vamos para a cozinha — disse Valmont. — Isto se conta sentados.
Sentaram-se todos em volta da mesa, menos Valmont, que ficou de pé de costas para o fogo e com as três coisas na frente: a candeia, a corda e a caixa de folha de flandres aberta.
— A senhorita Mercedes desceu àquela adega na noite de sexta-feira, sozinha, à uma e meia ou às duas. Desceu para tirar isto — disse, e pôs um dedo na caixa. — Enterrou aos vinte e um anos e veio buscar aos quarenta e quatro, e não tinha mais que uma noite, porque no sábado de manhã eu descia para medir os tonéis e ver o chão. Isso fui eu que disse nesta mesa, diante dela e diante de todos os senhores.
Limpou as mãos com o lenço e seguiu.
— Pegou a candeia do gancho da cozinha e o formão do banco do carpinteiro, e correu a tranca, e desceu. No quinto degrau a candeia se apagou. Aí está ela, cheia de óleo até o gargalo e com o pavio novo.
Levantou a candeia pela asa e tornou a deixá-la.
— E então fez o que qualquer um de nós teria feito. Acendeu um fósforo. Apagou. Acendeu outro. Apagou. Acendeu o terceiro. Os três estão lá embaixo, no mesmo degrau, queimados até a metade do palito. — Valmont olhou um por um os que estavam sentados. — Os senhores teriam subido. Ela não subiu, porque ela não sabia. Esta mulher foi embora daqui uma semana antes de se dizer nesta casa que em outubro não se desce. É a única pessoa do mundo a quem essa regra não chegou nunca.
Bruna tapou a cara com as duas mãos.
— Desceu no escuro os três degraus que lhe faltavam, contando de memória, e chegou ao chão. E no chão, senhores, o ar ruim lhe chegava por cima da cabeça. Teve tempo de se ajoelhar, de enfiar o formão pela junta e de levantar a laje com as mãos, e por isso tem terra nas oito unhas. Caiu de bruços ao lado. Eu calculo que ela não chegou a saber que estava morrendo.
— E quem a matou? — perguntou Olarra.
— Não a matou ninguém, sargento. Faz dois dias que eu quero dizer isso ao senhor e não podia, porque até esta tarde eu não tinha uma vela.
O sargento abriu a pasta de oleado e tornou a fechá-la.
— Tudo o que ao senhor parecia um crime se fez depois de aquela mulher estar morta — continuou Valmont. — E não foi uma pessoa que fez. Foram quatro, e nenhuma das quatro sabia o que as outras três faziam. É isso que me teve dois dias de pé diante daquela porta.
Apoiou-se no encosto de uma cadeira vazia.
— Eu nunca me pergunto quem pôde fazer. Eu me pergunto que espécie de pessoa fez isto precisamente desta maneira. E aqui a conta não fechava, porque aqui há quatro maneiras e não se parecem em nada.
Levantou um dedo.
— Alguém sobe um corpo arrastado por oito degraus puxando pelas axilas, que é uma brutalidade, e depois o estende de barriga para cima na laje limpa e lhe põe as mãos dos lados. Quem faz a brutalidade e quem arruma as mãos são a mesma pessoa e são duas pessoas diferentes. Isso é um irmão. E esse irmão está há dois dias com a cara cinzenta e vomitando no curral, sargento, e o senhor e eu estivemos lendo isso como arrependimento. Não é arrependimento. É o mesmo ar, em pequeno.
Higinio tinha os olhos cravados na mesa.
— Alguém, vinte minutos depois, vira um bolso dela do avesso e não toca no anel nem no relógio nem no dinheiro que ela levava em cima. Isso não é um ladrão. Isso é alguém que sabia que papel procurava, porque tinham mostrado a ela na noite anterior.
— Fui eu — disse Bruna, sem destapar a cara.
— Alguém, às seis e quinze, vê a porta aberta, não olha dentro, põe a tranca e vai buscar os vindimadores para ganhar uma manhã. Esse homem não está pensando num cadáver. Está pensando em cento e trinta cântaros de vinho e na segunda-feira.
— E esse sou eu — disse Efrén.
— Esse é o senhor, e disso o senhor responde em Solmena, que é onde cabe. — Valmont levantou o quarto dedo. — E falta a quarta. A quarta não tocou no corpo, nem no bolso, nem na porta. A quarta saiu uma noite ao curral com um torquês para arrancar uma tábua da parede.
Sabina Ozcoz se levantou da cadeira tão depressa que a derrubou.
— Senhora, me faça o favor de se sentar.
— Eu não arranquei nada.
— A tábua está entre os sarmentos, com a estopa ainda pregada e os quatro pregos tortos — disse Valmont, e não levantou a voz em momento nenhum. — No marco da seteira há quatro furos e a madeira do fundo está clara. Essa tábua foi posta faz três ou quatro meses e foi tirada anteontem.
A mulher ficou de pé, com as mãos penduradas.
— No ano passado a sua filha passou oito dias vomitando, com enxaqueca, e dom Fermín disse à senhora que era do cheiro do mosto e que a levasse para o campo — seguiu Valmont. — A menina dorme em cima do curral. E a seteira da adega dá para o curral, debaixo da janela dela.
— Eu tapei em julho — disse Sabina.
— Com uma tábua e um saco.
— Com uma tábua e um saco. — As lágrimas começaram a cair, e ela continuou de pé e sem enxugá-las. — Para que a menina não ficasse doente outra vez. É tudo o que eu fiz. Um buraco de um palmo e meio numa parede da minha casa.
— E por esse buraco de um palmo e meio a adega respirava — disse Valmont. — Sente-se, eu lhe peço. Nenhum de nós que estamos aqui teria feito outra coisa.
Sabina se sentou e começou a chorar em cima da mesa, e o marido pôs uma mão nas costas dela e a deixou ali.
— Falta a última coisa — disse Valmont — e é de vinte e três anos atrás.
Dona Práxedes levantou a cabeça.
— No dia catorze de outubro, um rapaz de vinte e quatro anos que ia embora para a América desceu àquela adega para pegar uma caixa de folha de flandres que estava enterrada debaixo de uma laje. Era outubro e o mosto fervia, e naquela época não havia regra nenhuma e ninguém tinha dito a ele tampouco.
Ninguém respirava na cozinha.
— A senhorita Mercedes o encontrou lá embaixo. Subiu arrastando, igual a como o irmão dela a subiu no sábado, e saiu ao pátio com ele nos braços dando gritos. E o pai dos senhores desceu àquele pátio e viu o que havia: um morto, uma filha com a mala pronta e uma adega que acabava de matar um homem.
— E o meteu no tanque — disse Bruna.
— Meteu no tanque. Por isso dom Anselmo disse diante desta senhora que aquele rapaz não tinha água no peito, e por isso escreveu e não insistiu. — Valmont fez uma pausa muito curta. — E à filha disse que a Guardia Civil diria que tinha sido ela, e que não havia jeito de provar o contrário, e que pegasse o ônibus das cinco.
— E por quê? — perguntou Bruna. — Por que ele disse isso à própria filha?
— Porque uma adega que mata um homem não vale nada, mademoiselle, e tudo o que esta casa tinha estava metido naquela adega. — Valmont olhou o caderno de avaliação, que continuava aberto em cima da mesa. — O pai dos senhores escolheu. E depois, para que não tornasse a acontecer, proibiu descer em outubro, e não explicou nunca por quê, e assim os senhores cumpriram vinte e três anos. Funcionou, senhores. Funcionou com todos menos com a única que não estava.
Dona Práxedes passou o lenço por baixo dos olhos, uma vez só, e tornou a guardá-lo.
— Sargento — disse Valmont —, escreva morte acidental e durma bem.
Olarra demorou bastante para responder. Depois tirou o lápis e anotou três palavras.
A casa foi se esvaziando lentamente. Levaram Sabina para deitar, e Bruna saiu atrás da tia, e os guardas apagaram a lâmpada do pátio.
Valmont ficou sozinho na cozinha com Higinio Reinares, que não tinha saído da cadeira.
— Monsieur, me resta uma pergunta e não tem nada a ver com o sargento.
— Pergunte.
— O senhor desceu àquela adega com uma vela e com uma corda amarrada no poste. — Valmont se sentou em frente dele, pela primeira vez desde que tinha chegado à casa. — Um homem que acorda e dá pela falta da irmã desce correndo e no escuro e chamando aos gritos. Não amarra uma corda na cintura. Quem amarra uma corda já sabe o que vai encontrar, e faz um tempo que sabe.
Higinio olhava a candeia de latão em cima da mesa.
— Vi a luz por baixo da porta da minha janela — disse.
— A que horas?
— Às duas menos alguma coisa.
— E o senhor desceu às cinco e dez?
— Às cinco e dez.
Valmont não disse nada. Lá fora se ouvia o mosto.
— Três horas — disse Higinio. — Fiquei sentado na beirada da cama três horas, de botas calçadas. E vou dizer a verdade ao senhor, monsieur, porque agora tanto faz. Eu não pensei uma vez sequer no ar. Eu pensei que ela estava lá embaixo revirando e que ia levar o que fosse, e que quando tivesse iria embora, e que se eu não descesse talvez ela fosse embora desta casa e não voltasse nunca.
— Sei.
— E desci quando amanhecia porque não aguentava mais. — A cara dele se moveu uma vez só e ficou quieta. — Três horas. O senhor acha que uma pessoa aguenta quanto lá embaixo?
— Três minutos — disse Valmont.
E não acrescentou nada, porque não havia nada a acrescentar e porque lhe pareceu que aquele homem ia ter que viver com essa conta até o fim, e que não precisava de nenhuma ajuda para fazê-la.
Foi embora no dia seguinte no ônibus de linha das onze.
Deixou em cima da mesa da sala de jantar as nove folhas da avaliação, com os tonéis, a eira, o telhado, as duas juntas de bois e a adega, tudo com o seu preço ao lado. Devolveu a Bruna Reinares meia folha de caderno dobrada em quatro e disse que era dela. E a dona Práxedes, que o acompanhou até o portão apoiada na bengala, disse uma só coisa mais, que não vinha ao caso.
— Eu anunciei naquela mesa que no sábado desceria para ver o chão, madame. A sua sobrinha tinha uma noite.
— O senhor não sabia.
— Não, madame. Eu não sabia. — Pôs o chapéu. — É o que se diz sempre nesta casa.
Do cruzamento, enquanto esperava o ônibus, via-se o pátio do lagar de Anzuela por cima do muro.
A porta da adega estava escancarada, e estava aberta desde o amanhecer, e na parede do curral o vão da seteira estava limpo de sarmentos. Higinio Reinares apareceu no pátio com uma vela acesa na mão. Parou no alto da escada, pôs a vela na frente, e desceu o primeiro degrau muito devagar, olhando para ela.
Valmont ficou vendo ele descer até o ônibus chegar.
Fim
Primeiro desce a candeia
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